10 April 2017

MY STRUGGLES AS A WRITER



Ser escritor(a) é talvez das profissões mais complexas que existem. Seja enquanto jornalista ou académico, como poeta ou blogger, escrever é das actividades mais ingratas e, ao mesmo tempo, das mais gratificantes. Parece contraditório, não parece? Mas a verdade é que, muitas vezes, parece que a escrita não é algo que realmente nos pertence, mas que vai e vem comandada por outras forças, exteriores a nós mesmos. Escrever sobre o que é escrever é ainda mais complicado, mas é sobre isso que vos quero falar hoje - as dificuldades que sinto enquanto escritora. 

Being a writer is perhaps one of the most complex professions in existence. Whether as a journalist or in academic studies, as a poet or as a blogger, writing is one of the most ungrateful, yet rewarding activities. Sounds conflicting, doesn't it? But the truth is that, many times, it feels like writing isn't something that truly belongs to us, but that comes and goes commanded by external forces. Writing about what it is writing is even more complicated, but it's what I want to talk about with you today - the struggles I feel as a writer.




Quando estava na escola, entre os meus 13 e 17 anos, a minha escrita fluía quase sem esforço nenhum. Fanfictions, pequenos textos pessoais, romances e histórias fantásticas e até mesmo poemas, chegava tudo até mim com uma facilidade que me enchia de orgulho. Guiei-me muitas vezes por esse orgulho, pois na minha falta de auto-estima, apelidar-me de escritora era o suficiente, pois havia algo cá dentro que substituía os quilos a mais, a cara bolachuda, o facto de ser desajeitada e não saber fazer mais nada para além disso, desses textos que toda a gente parecia adorar. 

No final da escola secundária, esta fluidez dissipou-se quase por completo. Deixei de gostar daquilo que escrevia e afastei-me dos cadernos e papéis e computadores. Não sei se me tornei mais exigente ou se não me esforcei o suficiente. A verdade é que a escrita não é tanto um dom que nos aparece miraculosamente, mas algo que deve ser continuamente trabalhado para poder evoluir ao mesmo tempo que nós. Ainda assim, questionei-me muitas vezes se poderia realmente chamar-me de escritora. Ouvia falar de um Fernando Pessoa que passava a vida a escrever, para todo o lado que ia, e subitamente o meu dom não me parecia assim tão merecedor de atenção. 

When I was at school, while I was 13 to 17 years old, my writing flowed with practically no effort at all. Fanfictions, small personal texts, romances and fantastic stories and even poems, everything would come to me with such easiness that would make me proud. Many times I guided myself through that pride, because with my lack of self-esteem, calling myself a writer was enough, for there was something inside that would replace the extra weight, the round face, the clumsiness and not knowing how to do anything besides that, besides those texts that everyone seemed to love.  

By the end of high school, that fluidity was gone almost completely. I no longer enjoyed what I was writing and I grew distant from notebooks and papers and computers. I'm not sure if I became more demanding or if I didn't put enough effort. The truth is that writing isn't so much about a gift that shows itself miraculously, rather something that we need to work at continuously in order for it to evolve at the same that we do. And yet I questioned myself many times, wondering if I could truly call myself a writer. I heard about Fernando Pessoa, who spent his days writing everywhere he went to, and suddenly my gift didn't seem so worthy of attention. 


Entrei para o Mestrado em Jornalismo com o coração das mãos. Não foi tanto uma sensação de vocação que se apoderou de mim, mas confrontar-me finalmente com aquilo que sempre considerei parte de mim: a escrita. Aí, em reportagens com data limite, notícias espremidas à pressão e o obrigar-me a sentar-me em frente ao computador e escrever, confirmei que a maior razão, talvez, porque parei de escrever, foi por preguiça. Preguiça e um bocadinho de mágoa, como uma criança fica magoada quando os pais não lhe dão aquele brinquedo que ela adorou na prateleira do supermercado. Foste embora, não foste? Então também não te vou procurar. Foram precisos alguns anos para conseguir sentir que havia qualquer coisa cá dentro que continuava a chamar por mim. A escrita nunca desiste de nós, somos nós que temos que nos esforçar por ela. É o carinho e a dedicação que oferecemos às nossas obras de arte que nos oferecem o resultado final, e não uma ordem exterior que nos escolhe a dedo para sermos diferentes dos outros.

Ainda assim, continua a ser difícil. Tenho escrito menos aqui pelo blogue porque nem sempre a inspiração está do meu lado. O mundo está particularmente cinzento para mim nesta altura do ano, e pela primeira vez desde que 2017 chegou, sinto-me um bocadinho em baixo. Isso traduz-se na minha preguiça em escrever, na minha vontade em ouvir música deprimente e ver filmes que me fazem chorar. Tenho tentado lutar contra isso, daí que escrever sobre a dificuldade em escrever seja uma boa forma de quebrar esta pausa.

I applied for the Masters in Journalism with everything I got. It wasn't this calling that I felt, but the need to finally confront myself with what I always considered to be a part of me: writing. Then, the reports with deadlines, news that were squeezed with a lot of pressure and the obligation of sitting in front of a computer and write, confirmed that the biggest reason, perhaps, as to why I stopped writing, was laziness. Laziness and a bit of hurt, the one that a child gets when the parents won't buy that toy she loved in the supermarket's shelf. You left, didn't you? So I'm not searching for you either. It took me a few years to feel again this thing inside that kept calling for me. Writing never gives up on us, but it's our job to keep fighting for it. The affection and dedication we offer to our pieces of art give us the final result, not some exterior order that picks us selectively for being different than others.

And yet, it's still hard. I've been writing less here on the blog because inspiration isn't always by my side. The world is particularly grey for me at this time of the year, and for the first time since 2017 arrived, I feel a bit a down. That can be seen with my laziness in writing, in my need to listen to depressing music and watch movies that make me cry. I've been trying to fight against it, which is why writing about my difficult in writing seems a good way to break this hiatus. 


Acho que é bastante óbvio que não sou a melhor pessoa a dar conselhos, pois ainda os estou a aplicar ao meu dia-a-dia. Mas se sentirem que a escrita faz parte do vosso ser, do vosso coração, não desistam. O acto de não desistir está cheio de responsabilidades. Escrever acaba por ser uma forma de vermos o mundo de outra forma, seja através dos olhos mágicos de um poeta ou no detalhe minucioso do jornalista. Escrever tem também a grande responsabilidade de traduzir a beleza e a escuridão do mundo para o papel. Mas essa responsabilidade não tem que ser um fardo. Acima de tudo, não se desmotivem com o que vêem quando terminam algum texto, reportagem ou poema. O mundo é gigante e haverá sempre alguém que adorará ler-vos. E se isso não é inspiração suficiente para fazer com que acreditem em vocês, oiçam essa vozinha que vos chama até ao papel, ao documento digital, ao caderno. Essa voz tem o poder de mudar as vossas vidas.

I think it's pretty obvious that I'm not the best person giving advice, because I'm still trying to apply it to my everyday routine as a writer. But if you feel like writing is a part of who you are, of your own heart, do not give up. The act of not giving up is full with responsibilities. Writing is a way of seeing the world differently, whether through the magical eyes of a poet or the meticulous detail of a journalist. Writing also has the responsibility of translating the beauty and darkness of the world to paper. But that responsibility shouldn't be a burden. Most of all, do not give up with what you're seeing when you end a text, a report, a poem. The world is gigantic and there will always be someone that will love to read you. And if that's not inspirational enough to make you believe in yourselves, listen to that little voice that calls you to a paper, a digital document, a notebook. That voice has the power to change your lives. 

18 comments so far

  1. Lindo texto. Obrigada por ele e também tu, não desistas! Também estou a passar por um momento mais triste (mas já passa) e escrever até ajuda a melhorar. Força!

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    1. Força para ti também, querida Filipa! Ainda bem que gostaste <3
      Beijinho :)

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  2. Gostei do post, escrever com qualidade é mesmo uma tarefa difícil!

    Beijinhos,
    Inês
    http://www.indiglitz.pt

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  3. Sou exactamente como tu, tanto que temos um percurso académico muito semelhante, e acabei por criar o blog quando entreguei a minha tese de mestrado. Apesar de adorar ler e escrever, é "fácil" perdê-las na rotina por desleixe ou preguiça. Compete-nos a nós lutar por algo que gostamos e, quiçá, até temos algum jeito para fazer!

    O meu conselho (bem amador também) é tentar distanciar o que escreves e lês por obrigação motivando-te com o que escreves por paixão.
    Boa sorte!

    Marta Rodrigues, Majestic

    PASSATEMPO CONJUNTO KAT VON D (2 BATONS E O EYELINER!)!

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    1. Óptimo conselho e tão, mas tão verdadeiro! Cada vez mais percebo que escrever por paixão torna tudo mais fácil e fluído :)
      Beijinhos Marta!

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  4. Isto pode ser aplicado a tanta coisa. Acho que qualquer actividade criativa, que por algum motivo nos era absolutamente natural na infância, passa pela fase de desencantamento ou de menor fluidez. Acho que percebemos com o crescimento que estas coisas, por muito que sejam uma paixão, dão trabalho e exigem dedicação. E recriminamo-nos por já não fluirmos como dantes. Mas acho que é uma armadilha da vida. Se passarmos pelas desilusões é continuarmos a tentar, pouco que seja, já somos vitoriosos. Gostei muito deste texto, identifiquei-me perfeitamente nele. Que a nuvem pesada se aligeire em breve para ti. :)

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    1. Muito obrigada! Sinto-me feliz por estar acompanhada nesta caminhada, que não é tanto uma coisa individual mas uma pela qual todos passamos. Também espero que a nuvem desapareça depressa.
      Obrigada por estas palavras <3
      Beijinhos :)

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  5. Existe sempre os momentos "difíceis" de um criativo e isso é perfeitamente normal :)
    No caso da escrita, deve ser uma tarefa difícil por vezes. O post esta muito bom ;)

    Beijinhos**
    _________________________
    All The way is an adventure
    Jess & Rose Blog | Instagram | Youtube

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  6. Gostei do post. Também passei por isso. Escrevia muito até ao Secundário e depois disso, não tendo seguido um curso na área de letras, caí na armadilha de "se não vou usar a escrita para a profissão, então não faz sentido "perder tempo" com isso". Depois lá percebi que era mais feliz se escrevesse, mesmo só como hobbie e criei o blog. Também vou passando por fases em que me apetece muito escrever e outras em que nem por isso, mas é normal. Não podemos estar sempre inspirados :)

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    1. Não podemos desistir daquilo que gostamos de fazer! E a inspiração não vem sempre, é tão verdade. Às vezes até gostávamos que aparecesse mais vezes, mas pronto. Beijinhos, Inês :)

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  7. Acho que qualquer pessoa com paixão pelo que faz passa, em alguma altura da sua vida, por uma fase de desmotivação. No entanto, não acho que seja mau. Acho que essas pausas nos ajudam a crescer e a voltar com mais força!
    Gostei muito desta tua abordagem :)
    Kiss, Mariana Dezolt
    Messy Hair, Don’t Care

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    1. Antes, quando estava no início da dita pausa com a escrita, levei tudo muito a mal. Era como se estivesse a perder qualidades, sentia que não havia mais para além disso. Agora consigo perceber que, de certa maneira, a pausa ajudou-me a crescer por dentro, como tão bem disseste.
      Muito obrigada, Mariana :)
      Beijinhos!

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  8. Tal como referiste, é algo que deve ser trabalhado. Podemos ter jeito, e até uma grande dose de talento mas se não trabalharmos nunca vamos chegar muito longe.
    Adoro escrever mas confesso que tenho que dedicar mais tempo a esta atividade.

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    1. Cada qual escreve mediante aquilo que necessita, e se quiseres realmente dedicar mais tempo à escrita, então não desmotives e agarra-te às letras! Beijinhos :)

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  9. Este texto está tão completo tão bom, gostei de tudo o que li, do início ao fim! Força neste momento mais mau, e luta por aquilo que te faz bem <3 beijinhos
    http://anamakeawish.blogspot.pt

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