8 March 2017

What it means to be a woman


Quando eu era pequena, nem sei dizer concretamente a idade, a minha avó entrou no meu quarto com o meu nenuco favorito no seu carrinho cor-de-pérola e um embrulho no colo. Era o Dia da Criança, o dia que todas as crianças adoravam porque era sinónimo de um presente, de um miminho. Já não consigo lembrar-me o que foi que a minha avó me ofereceu, mas sei que tinha a ver com o meu nenuco e o meu papel enquanto mamã de quem eu vim a chamar de Nonô

Eventualmente, obriguei a minha família a parar de me oferecer presentes nesse dia, porque "já não sou uma criança, que vergonha". Deixei de ter um dia-só-para-mim como os meus avós tinham o Dia dos Avós, ou a minha mãe tinha o Dia da Mãe. Mas a verdade é que nunca associei o Dia da Mulher à minha pessoa, porque nunca me concretizei mulher.




Na minha adolescência estereotipada, ser mulher significava ser bonita, ser magra, ser da moda, sem saber sequer o que isso significava. Achava que não era nenhuma dessas coisas, e da moda era um definitivo não, principalmente na minha fase Tokio Hotel (muitos calafrios, muitos mesmo). Sempre me senti tão distante daquilo que queriam representar na mulher-modelo, que acho que me escondia nas minhas caveiras e nos meus eyeliners por considerar que não merecia mais. Como considerei essa visão a mais realista, passaram-se muitos anos até conseguir entender que não era bem assim, cometendo muitos erros, comigo e com os outros, até acreditar que precisava de mudar.

Quando deixei de me basear no exterior, passei a basear-me apenas no interior. Passei a ser a escritora, e olhava muitas vezes para mim e dizia "pelo menos és boa nalguma coisa". Era auto-destrutiva com aquele pelo menos, como se isso me bastasse, como se não pudesse ser mais para além dessa pequenina palavra, tão aparentemente insignificante. Ser mulher-escritora foi muito giro até ter uma daquelas crises que duram anos, onde nos questionamos que poesia é esta que estamos a escrever ou quando foi que as nossas ficções se tornaram tão más. Com a crise, voltei ao vazio. 

Ao meu vazio. 

Aquela frase muito famosa da Internet que diz algo nas linhas de não amarmos alguém até conseguirmos amar-nos a nós mesmos é muito bonita, mas muito incorrecta, no meu caso. Estilhaçada por dentro, muito vazia, muito sem saber o que era, encontrei o meu namorado e subitamente tinha alguém na minha vida que me amava. Olhei-me muitas vezes no espelho e questionei-me sobre o que estava a acontecer. Seria outra pessoa que eu iria magoar? Seria outra brincadeira que me iria deixar mais... Perdida? Como é que alguém é capaz de amar o vazio? Mas ele, em vez disso, ensinou-me a valorizar-me. Não criei uma dependência onde não sei existir para além dele, antes arranjei um amigo capaz de agarrar nos estilhaços e consertá-los, mostrando o que estava para lá dos cacos, para lá do inconsertável. 

Junto a esta descoberta comungada, descobri o mundo das mulheres, onde as etiquetas não têm lugar. Não foram encontros distintos, antes perpendiculares um ao outro, caminhando lado a lado e que chegam ainda à minha actualidade. Consegui compreender que não existe uma mulher-modelo, aquela que todas as raparigas da minha adolescência tentavam copiar. Esse protótipo era apenas uma percentagem mínima do todo que somos, com os nossos defeitos, as nossas qualidades, as nossas identidades. A representatividade dessa colectânea de mulheres fez com que me apercebesse que, afinal, não estava assim tão perdida. Muito pelo contrário, estava completamente incluída. 


Hoje, acredito que ser mulher baseia-se na minha própria definição, e não naquela que querem fazer de mim. Vai muito para além da minha aparência ou daquilo que mais gosto de fazer, é antes a totalidade daquilo que me tornei. Aprender a valorizar-me não é sinónimo daquilo que os outros projectam em mim. Há espaço para toda a minha personalidade, toda a minha beleza, e num mundo onde isso não é aceitável, encontram-se pequenos espaços onde o amor e a inclusão são maiores. 

Ser mulher é isto: é irmos para além daquilo que querem definir em nós. 
Estou feliz por ser mulher num mundo que caminha para o progresso, onde não apenas o que é conveniente, catalogado, é aceitável. Um mundo onde, nas minhas diferenças, sou aceitável. Talvez um dia consiga falar completamente sobre elas, confortavelmente. Mas isso é uma história para outro dia.

Bom dia para essas MULHERES. 
Bom dia para MIM.



NOTA: Muita incerteza sobre publicar ou não. Sem vontade de querer ser mal interpretada, acreditem que é um texto para todas nós e para mim também, que de vez em quando preciso de ouvir estas coisas da minha própria boca. Não há intenções de ofensas ou de insultos, apenas o desejo de chegar ao coração de todas, porque todas merecem.

1 comment so far

  1. Excelente post. Identifiquei-me com cada palavra. Mas acho que só descobrimos mesmo a nossa essência quando vamos caminhando, e percebemos que não precisamos de chegar a lado nenhum, apenas continuar a nossa viagem, fiéis a nós próprias. :)

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